ADJUVANTE DA BRUCELLA:
“ADJUVANTS LIKE TOLL-LIKE”

Neste artigo, vamos comentar o trabalho intitulado “Role of Toll-Like Receptor 4 in induction of cell-mediated immunity and resistance to Brucella abortus infection in mice”, publicado em janeiro na revista Infection and Immunity. Este trabalho, feito em colaboração com diferentes grupos de pesquisa, cujo autor para correspondência é Sergio C. Oliveira*, foi eleito pela Sociedade Americana de Microbiologia (ASM), editora da revista, como um dos seis melhores artigos publicados nos 12 periódicos da ASM. Neste trabalho, os autores identificaram a estrutura do lipopolissacarídeo (LPS) presente na superfície da Brucella abortus e demonstraram a importância do TLR4 (Toll-like receptor 4) no controle da infecção.

Testando a infecção em camundongos, os autores demonstraram que a Brucella abortus sinaliza via TLR 2 e TLR 4. No entanto, o LPS derivado da bactéria somente ativa o TLR 4. A abordagem utilizada neste trabalho mostra como a descoberta dos TLRs revitalizou os estudos sobre o sistema imune inato (veja comentários completos a respeito do assunto no SBI na rede 12 (http://www.sbi.org.br/sbinarede/SBInarede12).

Contribuindo para esse entendimento, os autores demonstraram que macrófagos derivados de animais C3H/HeJ, que apresentam uma resposta defeituosa aos LPS devido a uma mutação pontual na porção intracitoplasmática do TLR4, produzem níveis menores de IL-12 e TNF-alfa em resposta à B. abortus quando comparados com animais C3H/HePas, que apresentam resposta normal do TLR4. Nenhuma diferença na produção destas citocinas foi encontrada entre os macrófagos de animais knock-outs para TLR2 e seus respectivos controles wild-type, confirmando a importância da sinalização via TLR4 para uma resposta efetiva à B. abortus. A ativação deficiente dos macrófagos provenientes dos camundongos C3H/HeJ coincide com o grande número de colônias da bactéria encontrado no baço desses animais 3 e 6 semanas após a infecção e com sua deficiência na produção de IFN-gama, uma das principais citocinas envolvidas no controle dessa infecção (Ko, J. e col., 2002).

Não é à toa que o trabalho desses pesquisadores brasileiros alcançou tamanha repercussão. Além do salto no entendimento da imunidade à Brucella abortus, uma bactéria intracelular que infecta o homem e animais domésticos, com grande importância para a pecuária, a identificação do LPS como o principal indutor da ativação celular permitirá a utilização desse componente da B. abortus como adjuvante em vacinas para outras doenças infecciosas. Como a ativação do sistema imune pelos LPS é devida ao lipídeo A, que é praticamente igual em todas as bactérias Gram-negativas, é provável que a descoberta auxilie também no tratamento de outras doenças infecciosas.

Corroborando essa possibilidade, os pesquisadores mostraram que o tratamento de células dendríticas imaturas infectadas com um adenovírus recombinante expressando a proteína CS do Plasmodium yoelii, com o lipídeo A (componente do LPS responsável por sua atividade biológica e proinflamatória) (Erridge, C. e col, 2002; Galanos, C. e col., 1985) da B. abortus é capaz de induzir a produção de altos níveis de IFN-gama por linfócitos T CD4+ e TCD8+ específicos ao parasita. Assim, através da ativação de macrófagos e células dendríticas por um componente “padrão” das paredes bacterianas, que se liga especificamente ao TLR4 presente nessas células, esse grupo de pesquisadores brasileiros propõem um modelo de adjuvante que pode ser eficaz para outros patógenos.


Karina R.B. Bastos
e
Momtchilo Russo


Modelo proposto pelo Dr. Sergio Oliveira e seus colaboradores para a utilização do lipídeo A da B. abortus como adjuvante em vacina contra o Plasmodium yoelii. Os pesquisadores trataram células dendríticas imaturas infectadas com um adenovirus recombinante expressando a proteína CS do Plasmodium yoelii, com o lipídeo A da B. abortus. Camundongos vacinados com essas células apresentavam maiores números de linfócitos T CD4+ e TCD8+ específicos ao parasita produtores de IFN-? em relação aos animais vacinados com as mesmas células dendríticas sem o tratamento com o lipídeo A, sugerindo a utilização desse composto do LPS como adjuvante em vacinas contra outros patógenos.

* Departamento de Bioquímica e Imunologia, Universidade Federal de Minas Gerais, Av. Antonio Carlos 6627, Pampulha, Belo Horizonte, MG, Brazil, 30161-
970. Phone and fax: 55-31-34992666. E-mail: scozeus@icb.ufmg.br)