NÁUFRAGOS DA EXCELÊNCIA

País de riquezas naturais e sociedade que poderia ser rica! Nada novo nessa constatação de exemplos variados e demonstrações múltiplas pelos meios de comunicação, em escritos e versos declamados ou cantados. As gerações, cá nessa terra enfrentaram de maneiras as mais diversas o descompasso entre o tempo e o espaço concedido pelos desenvolvidos. No decorrer dos últimos 150 anos, os habitantes desse gigante adormecido testaram e comprovaram suas capacidades criativas; trabalharam artesanalmente, foram atraídos pelas febres das aquisições, aceitaram passivamente ou adaptaram–se às regras impostas pelos poderosos. Esse foi também o traçado geral das ciências, dos cientistas no Brasil. No enorme campo das ciências biomédicas, por exemplo, o leque de especialidades cresceu mundialmente; porém, contrapondo–se ao que imaginam, inclusive da comunidade científica, apesar de ter ocorrido a diversificação das linhas de pesquisas houve queda nos investimentos do Estado em infra–estrutura, diminuiu a absorção de jovens docentes/pesquisadores, e ocorreu o empobrecimento da geração de conhecimentos.

O contexto ocupou o lugar do conceito! Diz–se com uma pitada de orgulho que há ilhas de excelência e, para os que ocupam esse espaço maravilhoso, o essencial é lutar para manter–se. E há uma incapacidade instalada, talvez definitiva, dos professores/pesquisadores pouco cultos. E os olhares do colonizador [hoje o Cubo Norte, dito EUA] multiplicam–se nos docentes/pesquisadores da ilha do Cone Sul. Isso conduz à abdicação de questões como: a preocupação com o trabalho futuro dos jovens em formação; não arriscar muito ou nada frente às diretrizes do modelo acadêmico investindo no próprio prestígio. Os carreiristas estão ocupando os espaços; os tecnólogos travestidos de pesquisadores estão se disseminando e contaminando futuras gerações, em verdadeira matilha de raposinhas [se ao menos fossem autênticos lobos maus!] simpáticas e bem nutridas. Em realidade, aniquilam–se, sem ter consciência e qualquer responsabilidade sócio–educacional. O tratar só de si, tornar–se referencial de si mesmo, leva ao individualismo barato e à substituição da cooperação pela competição.

O eu e o meu colonizador, como o eu e o meu espelho, indiretamente ajudam a reafirmar e decretar diariamente a falência do ensino. E o sujeito torna–se mau caráter num passe de mágica! Essa diretriz que vem num crescendo desenfreado nos últimos tempos foi, paradoxalmente, sendo criada e incentivada por pesquisadores e professores, verdadeiros cardeais ou neocardeais guiados pelo grande continente dominador, no exíguo espaço de uma ilha de excelência. O sentido de nossas instituições públicas é constantemente desfigurado pelas ações privadas de profissionais ligados à ciência e, o exemplo mais gritante dessa apropriação indébita é dado pela sobreposição do individual ao coletivo. Sem formação ou qualquer vocação formativa, os indivíduos investem e propagam excrescências puramente técnicas, sem qualquer contribuição intelectual. Não poderiam mesmo! Mas são convidados a ministrar palestras, aulas, ascendem a postos diretivos, recebem auxílios pois são julgados por semelhantes...Tudo, diz–se, é ciência de ponta (sic), é vacina de 10a geração, é DNA p’ra cá, DNA p’ra lá, é PCR como banana em supermercado. E a frase fantástica de Dobzhansky, NADA EM BIOLOGIA FAZ SENTIDO, A NÃO SER À LUZ DA EVOLUÇÃO, deixa de ter sentido. Quem a entende? A vaidade é bestial e acaba por influenciar o ambiente acadêmico: o meu, trabalho é cada vez mais genial, devem repetir no asseio matinal...

Nesses últimos anos algumas ilhas vêm sendo visitadas por "grandes pesquisadores do hemisfério norte", participantes de uma espécie de FMI, cuja preocupação para com a geração de conhecimentos é praticamente nula, tornando difícil a consciência sobre os problemas de interesse para um país subdesenvolvido e fadado a ser produtor. Investidores nos mecanismos, o que traz dividendo, desconhecem fenômenos, o que importa para a ciência. O saber técnico (que se esvai rapidamente) não deve ser negligenciado, porém hoje adquiriu proporções gigantescas e vem sufocando parcela significativa da criação. Há o encantamento tecnológico!!! Alguns dos valores maiores ensinados pela superpotência são as quantidades das publicações em revistas de impacto (sic), o poder medido por cifras dos auxílios recebidos, a hipertrofia da especialização e, inclusive, pasmem, o número de teses "orientadas". Essa acomodação gerada em nossas instituições acaba sendo absorvida pela classe governante. Não são raros os exemplos de concessões ao sistema de C&T – a excrescência do mestrado rápido, a passividade ante aqueles que detém o poder [em geral um poderzinho!], a aprovação em nome de uma ética [vulgar], a submissão a tudo que é solicitado. Atenção: não precisamos responder a toda pergunta feita! [tem muita pergunta imbecil]. Assim, tudo parece bem e o Senhor Governador, os Senhores Ministros dormem o sono dos justos. Numa visão mais abrangente, para uma dada universidade o que interessa é essa dada universidade; e dentro de um Instituto interessa esse ou aquele Departamento. O que pode interessar à USP o que ocorre na UNESP ou no Instituto Agronômico? Vice–versa o contrário. E o que dizer–se das Universidades Federais? Literalmente arrebentadas... É deprimente, e as situações aparentemente insolúveis.

Vive–se a Era do desemprego mental dos docentes e pesquisadores, incapazes de transmitir às novas gerações a visão de mundo perpetuando e ampliando esse embotamento. Assim, o Estado empregador acaba apenas suportando as instituições de ensino e pesquisa, que se pretende referenciais de conhecimento, mas não respondem responsavelmente pelas suas sobrevivências dignas. Há pelo menos três anos, o Instituto Butantan, reconhecido por suas atuações exemplares nos campos de pesquisa e produção de imunobiológicos, em especial a partir de 1984, solicitou abertura de concurso para os mal pagos pesquisadores científicos. Esse processo, após as corretas instrução e tramitação, aprovação orçamentária inclusive, foi realizado após esse longo tempo que, em ciência é uma eternidade. E concursos para auxiliares e pessoal administrativo? Nem pensar!!! Tudo é lento em se tratando de ciência. Esse fato ilustra a irracionalidade que cerca as decantadas ilhas de excelência. Parece haver um jogo, no qual os administradores incógnitos (seria o Coordenador A, o Assessor X, o Secretário Y) testam a capacidade de cercar as ilhotas, esses “acidentes geográficos”. Em 2003, estive na Universidade Federal do Rio de Janeiro e me revoltei caminhando pelo Instituto de Biofísica; no mínimo em consideração à memória do trabalho do Prof. Carlos Chagas Filho, os dirigentes deveriam no mínimo se envergonhar e, urgente e publicamente rever sua administração. Se a UFRJ está nessas condições, imaginem as outras Federais! Recentemente, descobri que sou um Homo pré–sapiens, pois ainda não entendi o Homo sapiens...

Penso, logo insisto! Porém, vejo-me usado. Mas só eu? E os outros professores, os outros pesquisadores, o que tem a dizer? Sobre as cotas, sobre o ensino público fundamental! Tem cota para Índio? Tem cota para Mameluco? Para Híbridos? Por quê não retomar momentos do ensino fundamental que já foram essenciais para algumas gerações? As instituições públicas de ensino superior são cobradas a criar parcerias com empresas privadas, dizem em nome do desenvolvimento. Mas quando instituições atuantes, responsáveis e essenciais para a sociedade como o Butantan solicita o necessário ao parceiro principal, o Estado, vê–se diante de impasses sem qualquer lógica. Já às instituições de ensino privadas nada é cobrado. Ora, se o Estado realmente assumisse suas tarefas mínimas, uma parceria benéfica poderia se dar entre as instituições de pesquisa/ensino públicas e as universidades particulares. Muito se poderia fazer resgatando os referenciais de qualidade de ensino nessas entidades privadas de um lado (algumas gigantes do ensino pago não passam de modernas padarias), e dotando as instituições públicas de recursos para ampliação dos quadros de jovens pesquisadores e docentes de outro. Essa parceria viria corrigir uma grave distorção existente: as instituições públicas recebem anualmente alunos para estágios obrigatórios, impossíveis de serem realizados na própria instituição que não investe – jamais investirá – em pesquisa e desenvolvimento. Algumas escolas particulares até constituíram parcos núcleos de pesquisa, com dinheiro da FAPESP, claro, pois que ninguém é parvo; mas ante a impossibilidade de fixar e incrementar esses centros, mantém apenas ilhotas de faz de conta. E convenhamos, nenhum administrador privado está apto a responder pelo interesse coletivo. É, portanto inconcebível que não haja uma retomada dos paradigmas que raros estadistas reconheceram, promovendo concursos públicos para provimento e ampliação dos quadros de professores e pesquisadores. Várias outras instituições seguramente vivenciam as aberrações aqui mencionadas. Esse artigo procura alertar aos profissionais das instituições públicas, aos cidadãos com visão social e educacional, alertar Diretores, Reitores, Chefes, sobre a inconsciência ou negligência de cientistas e intelectuais que alcançaram as ilhas de excelência, muitos ex–estagiários do grande continente do norte.

Meus caros, vocês não passam de náufragos!


Osvaldo Augusto Sant’Anna
Instituto Butantan – Laboratório especial de Microbiologia
gbrazil@usp.br