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A
morte celular no centro da experiência antigênica do sistema
imune.
"Hoc in loco mors sucurrere vivis gaudet"
("Neste lugar, a morte vem com alegria socorrer os vivos").
Eu vi esta frase na internet, na entrada de um Departamento de Patologia.
Me pareceu que ela se aplicava bem ao que a pesquisa em apoptose está
trazendo de novo. Uma série de estudos recentes revelaram a importância
do funeral de cadáveres celulares para a Imunologia. Estes estudos
estão renovando e reconsiderando conceitos pilares da Patologia
humana.
Bilhões de cadávares celulares, sejam de linfócitos
e neutrófilos, de células senis ou alteradas, são
gerados diariamente no corpo em consequência da morte celular programada.
E o olhar dos imunologistas percebeu que o processamento antigênico
destes cadáveres, por células dendríticas (DCs) e
macrófagos, é uma fonte inesgotável de autoantígenos
e de antígenos alogênicos, virais e tumorais, que precisa
ser regulada. Polly Matzinger chamou as células mortas de adjuvantes
naturais, por serem ativadores endógenos de células dendríticas
(1). As DCs ressucitam os antígenos que extraem destes cadáveres
através do fenômeno de "cross-presentation" (2),
em que os antígenos associados a cadáveres, ganham acesso
à via intracelular do MHC classe I, e estimulam células
T CD8. Antígenos associados a células mortas são
muito mais imunogênicos do que antígenos solúveis
(3).
A razão deste compromisso funerário
do sistema imune não está clara, mas segundo Alan Ezekowitz,
estaria na origem da própria imunidade inata. Segundo ele, os patógenos
apresentam uma espécie de "reação cruzada"
com o self alterado pela morte celular programada (4), e são reconhecidos
pelo mesmo conjunto de receptores scavengers de macrófagos e APCs.
Embora a teoria não esteja provada, existem exemplos de mimetismos
entre moléculas de patógenos e o "self necrológico",
através de CD14 e TLR2. O funeral celular pode estar implicado
também na tolerância. Mas durante o processamento antigênico
de células mortas, tanto a tolerância como a autoimunidade
poderiam prevalecer. Segundo Matzinger, a presença de células
necróticas ("danger"), seria necessária para iniciar
respostas imunes, e autoimunidade (1). Já a apoptose seria um processo
silencioso, não-inflamatório de morte celular, e mais do
que isso, supressivo (5). Na apoptose, cadáveres celulares são
gerados segundo uma sequência organizada de eventos enzimáticos,
e se acredita que eles rapidamente expressam sinais "eat-me"
("me fagocite") na membrana, antes da permeabilização
ocorrer, impedindo a liberação do conteúdo intracelular
que é pró-inflamatório (5). Além disso, o
engajamento destes necro-receptores ativa a secreção de
fatores anti-inflamatórios e supressores, como prostaglandinas
e o TGF-beta (5,6). Através do TGF-beta, o funeral apoptótico
inicia reações bioquímicas que inibem a síntese
de NO, ativam a enzima ornitina descarboxilase (ODC), e a síntese
de poliaminas, como a putrescina (6). O TGF-beta ativa também a
enzima ornitina aminotransferase, levando à síntese de colágeno
(7). O funeral portanto, sinaliza a diferenciação de macrófagos
para o fenótipo de ativação alternativa, que se contrapõe
à ativação citotóxica/microbicida. Esta mesma
via pode ser induzida por citocinas tipo 2, causando granulomas com intensa
reação de fibrose (8). No entanto, a via de reparo tecidual
que se acopla ao funeral de células apoptóticas, é
explorada pelo parasita intracelular Trypanosoma cruzi para ter acesso
à putrescina e multiplicar na célula hospedeira (6), uma
propriedade que pode levar a novas terapias para a doença.
Mas novos estudos indicam que a apoptose é mais complicada. Em
neoplasias e no sistema nervoso, foram identificadas novas formas de morte
celular independentes de caspases, e que apresentam características
mistas de apoptose, necrose e outras formas de degeneração
celular (9). Uma nova via de morte dependente de Fas/FasL, com características
mistas de necrose, foi identificada nos linfócitos (10). Deixando
a indagação inesperada da existência de uma necrose
celular programada. A ocorrência desta via poderia explicar porque
a expressão de Fas/FasL em macrófagos alveolares, é
necessária para deflagrar a silicose pulmonar (11), uma grave doença
inflamatória e fibrosante. Morte celular mista, por necrose e apoptose,
levando a um funeral inflamatório de cadáveres celulares,
poderia ter implicações na patogênese de doenças
autoimunes. O rápido avanço deste campo poderá ajudar
a entender novos aspectos de imunobiologia e de autoimunidade.
George A. DosReis sbi@biof.ufrj.br
Laboratório de Biologia Imunitária. Instituto de Biofísica
Carlos Chagas Filho da UFRJ.
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