Uma vez assisti a uma entrevista onde um cientista norteamericano, um físico, era interrogado por uma alta patente do Pentágono, sobre o dispêndio de bilhões de dólares, destinados à construção de um acelerador de partículas especialmente importante para a Física moderna. O militar queria saber se a máquina seria importante para a defesa dos Estados Unidos. O cientista, titubeante, respondeu que… não. Estupefacto, o militar dizia que, então, os cientistas pretendiam gastar aquela fortuna em algo que não serviria em nada na defesa do país!??" O cientista respondeu que a máquina e o conhecimento que ela geraria seria, sim, importante para o país, assim como são importantes as obras de arte, os poemas, os museus, as obras literárias, o ballet, enfim, tudo aquilo que faz como que os Estados Unidos mereça ser defendido.

Lembrei-me disso ao ler o ótimo e oportuno o artigo do George dos Reis sobre apoptose. Eu havia ficado particularmente interessado no artigo de Franc e Ezekowitz (1), por dois motivos: por prestar a devida homenagem a Metchnikoff, o único biologo do período fundador da Imunologia, e por permitir abandonar a ótica estímulo-resposta em favor da dinâmica de constituição do próprio organismo. Porque, afinal, o que importa é compreender como essa gigantesca máquina molecular/celular/tecidual se constrói e se mantém, não é mesmo? Os mecanismos de auto-construção, auto-manutenção, reparo e regeneração são hierarquicamente anteriores a necessidade de "defesa". Antes da "defesa", é preciso montar e fazer operar algo a ser defendido. Na realidade, a "defesa" de que falam os imunologistas é um comentário (legítimo) que podemos fazer como observadores do que se passa no organismo, quando vemos aspectos de seu operar resultarem na eliminação de um "agressor". Mas é igualmente legítimo pensar que o organismo, visto como uma máquina molecular auto-construída e auto-mantida, não tem intenções embutidas em sua estrutura. A "defesa" é um (possível) resultado do que ocorre, que pertence a mesma classe das reações alérgicas ou autoimunes que resultam em danos para o organismo. A "defesa" é parte de nossa observação, não da dinâmica de constituição do organismo.

Ao chamarem a atenção para a extrema eficácia e rapidez da fagocitose de células apoptóticas, Franc e Ezekowitz (1) nos alertam para o papel desse mecanismo na construção e manutenção de organismos multicelulares. Ou seja, a fagocitose é um processo indispensável ao aparecimento de organismos multicelulares em virtude de sua própria dinâmica estrutural. E é fácil aceitar que esse mesmo mecanismo tenha sido cooptado evolutivamente para a fagocitose de bactérias invasoras, ainda mais quando se leva em conta que bactérias já foram e continuam sendo uma fonte inesgotável de alimentos para os multicelulares. Quer dizer, a alimentação, como insistem novamente Ana Faria e sua equipe, é um aspecto básico da existência ao qual a atividade imunológica está fundamentalmente associada. Daí Franc e Ezekowitz (1) comentarem que estamos "de volta ao futuro", lembrando que era exatamente isso o que Metchnikoff propunha. Infelizmente, essa visão, mais biológica, foi deturpada pela ênfase nos mecanismos de "defesa" que dominou desde então a Imunologia e a afastou da Biologia.

Acho excelente que o progresso da genética e da bioquímica molecular nos levem de volta a problemas biológicos fundamentais.

Nelson Vaz-UFMG
nvaz@icb.ufmg.br

1. Franc NC, White K, and Ezekowitz RA. 1999. Phagocytosis and development: back to the future. Curr. Opin. Immunol. 11; 47-52.