Homenagem

Querido Professor Nelson

Já que o acaso não permitiu que eu hoje estivesse aqui na sua homenagem, agradeço à Ana Faria a oportunidade de expressar por e-mail, em poucas palavras, a minha consideração sobre a sua importância para a imunologia brasileira.

Nelson Vaz é um dos fundadores da imunologia brasileira. Ele é responsável direto pela formação de um grande número de importantes imunologistas. Como se isto não bastasse, Nelson Vaz é também responsável por uma espécie de “formação indireta”, mais sutil, de praticamente todos os imunologistas brasileiros que assistiram às suas conferências. Porque é impossível ficar indiferente a uma conferência do Prof. Nelson Vaz; é impossível não pesar e reavaliar os nossos próprios conceitos.

A carreira de Nelson Vaz é única. Ela é marcada por uma clara bifurcação no tempo, entre o modelo clássico de formação científica, por onde ele começou; e a forma como ele a exerce hoje. No tempo em que seguia uma trajetória aproximada da clássica, Nelson produziu clássicos da imunologia. Descobriu os genes Ir e a sua associação com o MHC. Seus dois trabalhos de 1970, com Levine, somam quase 800 citações. Oito anos depois, Nelson publicou um trabalho descrevendo a tolerância oral, que tem – ou tinha - 234 citações, e cujas conseqüências conceituais modificaram a sua interpretação da imunologia. Naquela ocasião, Nelson foi confrontado com novas idéias e conceitos, que vinham de diferentes áreas do conhecimento – inclusive, na imunologia, com os trabalhos inovadores de Niels Jerne e Antônio Coutinho. Em algum momento neste período, Nelson se encontrou; e se libertou para sempre do modelo clássico da carreira científica. Nelson criou e amadureceu uma visão inteiramente própria e heterodoxa da biologia e, mais intensamente, da imunologia. Sobretudo, uma visão extremamente coerente e inovadora. Passou a questionar de maneira enfática os métodos tradicionais da pesquisa, e o dirigismo de resultados que são obtidos dentro de um contexto auto-referencial, criado pelo observador. Nelson se desinteressou das revistas científicas tradicionais. “Missivista” convicto e talentoso, lançou – e lança- mão de recursos alternativos para difundir as suas idéias. Eu era ainda um estudante de mestrado no Rio de Janeiro. Quando por acaso, uma de suas célebres apostilas, ainda produzidas em Niterói, caiu em minhas mãos. E aquele texto inteiramente novo - ao mesmo tempo brilhante, devastador e atormentado - mudou para sempre a minha maneira de encarar a ciência.

Na segunda fase de sua carreira, Nelson Vaz se tornou um estudioso da ciência, um livre-pensador e um super-professor. Não o professor que ensina aquilo que já está escrito. Mas um professor único, que explica e ensina aquilo que ainda não está escrito em lugar algum. Pescador de almas, mas para desconstruir uma religião científica tradicional. Nelson encontra e adapta conceitos do passado, “acha” e inventa conceitos novos, vindos de onde vierem, e junta tudo para revelar o essencial esquecido, e o essencial inédito, esperando para serem encontrados. Por ser interlocutor do futuro, Nelson é imprescindível para todos nós.

Na minha tese para Professor Titular, que defendi em 1992, eu reconheci publicamente a grande importância do Prof. Nelson Vaz na minha própria formação. E a sua presença constitutiva na minha alma científica. - Nelson, é com grande alegria e honra que eu hoje lhe agradeço por tudo o que você me deu de graça, e que não tem preço. Pois, graças a este contágio com o seu pensamento, eu hoje posso enxergar mais longe do que novas siglas, números, setas, desenhos de bolinhas e esquemas cibernéticos. Eu aprendi a ver o organismo, admirando-o a partir de uma posição mais alta do que aquela criada pelo imediatismo das pequenas descobertas.

Vida longa, Professor Nelson. Obrigado por tudo

George Alexandre dos Reis.