SBI lança a “Carta de Ribeirão”: propostas para o desenvolvimento da imunologia brasileira
Por Cristina Caldas
Imunologistas reunidos em Ribeirão Preto, durante o congresso da SBI, discutiram como elevar a produção científica brasileira em revistas de alto impacto. As discussões catalisaram a elaboração da “Carta de Ribeirão”, aprovada por unanimidade pela diretoria e conselho deliberativo da SBI e enviada esta semana para diferentes agências e instituições: CNPq, SBPC, FESBE, FAPESP, FAPEMIG, FAPERJ, FAPESB, CAPES, ABC, MCT e FINEP. Na carta constam propostas da SBI para o desenvolvimento da imunologia no Brasil, com medidas a curto e médio prazo.
A idéia da mesa redonda “Imunologia brasileira: em busca de publicações com impacto mais elevado” surgiu quando Ricardo Gazzinelli, do Centro de Pesquisas René Rachou (CPqRR) da Fiocruz em Minas Gerais, foi procurado pelos editores do Journal of Experimental Medicine, que o questionava porque as publicações brasileiras no referido periódico são tão escassas. Várias questões foram levantadas entre a diretoria da SBI e alguns sócios e, com isso, surgiu a proposta de montar um fórum de discussão de política científica durante o congresso.
O presidente do CNPq, Marco Antonio Zago, abriu a sessão destacando as ações do CNPq para colaborar com o aumento da qualidade da produção científica brasileira. Citou o bom sistema de formação de pesquisadores, que se fundamenta principalmente na pós-graduação e que tem resultado no aumento no número de pesquisadores jovens – atualmente são 10 mil doutores formados por ano - e bem qualificados. “Um outro sistema precisa ser ampliado fortemente, que é o de pós-doutoramento”, disse Zago. Em seguida, comentou sobre as bases de financiamento do CNPq e os fluxos dos recursos, lembrando que o Brasil investe 1% do seu PIB em ciência e tecnologia (C&T).
“Quando comparamos com países desenvolvidos, aplicamos menos, mas o interessante é observar que o gap é muito maior quando comparamos com os investimentos feitos pelo setor privado. O setor produtivo brasileiro ainda aplica muito pouco em C&T”. Zago destacou que embora o Brasil represente cerca de 40% da população e do PIB da América Latina, 75% dos doutores da América Latina são formados no nosso país, o que coloca o Brasil bem a frente dos países vizinhos. Resumiu o complexo sistema de C&T brasileiro, que tem em sua base os grupos de pesquisa, irrigados por editais e bolsas e, recentemente, os institutos nacionais de C&T, além dos institutos de pesquisas federais que estão fora das universidades.
Mauricio Rodrigues, da Universidade Federal de São Paulo, colocou que o CNPq deveria fazer uma avaliação mais detalhada e científica do dinheiro investido. Zago argumentou que avaliação é fundamental, mas que para tal é necessária uma estratégia de guerra, com responsabilidade compartilhada entre o CNPq e os pesquisadores. “Os pesquisadores precisam participar do processo, pois muitos têm uma enorme dedicação, mas isso não é verdade para todos”, disse Zago, que recentemente teve que enviar uma carta pedindo aos pesquisadores que emitissem pareceres ao CNPq mais elaborados e detalhados.
Gazzineli levantou a preocupação com os tipos de editais do CNPq, que são muito específicos e aplicados, com montante insignificante para pesquisa básica. Zago esclareceu que o CNPq tem três fontes de recurso, que terminam por criar restrições de utilização de tais recursos. Uma primeira é a fonte orçamentária, votada pelo Congresso Nacional. Outra fonte são os recursos do Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FNDCT), inicialmente recolhidos pela FINEP e depois repassados para o CNPq. Esses recursos originários dos fundos só podem ser aplicados naquilo que o comitê gestor do fundo setorial decide, registrado em ata e conferido linha por linha. “O comitê, que tem representantes do governo, área empresarial e cientistas, decide quanto vai para pesquisa aplicada ou básica, o que em parte explica a armação dos editais”, explicou Zago. Recentemente, decidiu-se que apenas metade dos recursos seria gerida pelo comitê gestor dos fundos setoriais. A terceira fonte são os recursos vindos dos ministérios, que têm aportes financeiros para fazer pesquisa, mas não estão aparelhados para administrá-los.
A dificuldade de importação também foi levantada como um entrave ao desenvolvimento das pesquisas brasileiras, destacando-se a pouca eficiência do importa fácil. Zago pediu que os pesquisadores dessem retornos específicos ao CNPq quando tiverem problemas de importação.
Gazzineli elencou também a falta de infra-estrutura básica como um dos fatores limitantes ao desenvolvimento da imunologia no Brasil. “Não temos instalações para transgênicos e knockouts, nossas limitações estão dentro das próprias instituições, a maioria com infra-estrutura deteriorada”, destacou o pesquisador. Zago concordou que precisamos criar e melhorar a infra-estrutura nas instituições e fazer os equipamentos funcionarem, pontuando a necessidade de contratação de técnicos especializados. “Não é bolsa que resolve isso, e sim contratação, CLT, 13º salário, férias”, disse.
Em seguida, a presidente da SBI, Aldina Barral, traçou um panorama do estado atual da imunologia brasileira, mostrando dados que colocam o Brasil em 13º lugar na produção científica em imunologia no mundo, com Estados Unidos disparados na frente, seguidos da Inglaterra e Alemanha. Quanto à produção científica em todas as áreas, o Brasil fica em 15º lugar, com Estados Unidos em primeiro, seguidos da China e da Inglaterra.
Avaliando a produção científica em todas as áreas no bloco BCIC (Brasil, China, Índia, Coréia), a China dispara, apresentando crescimento exponencial do número de artigos publicados nos últimos seis anos. O mesmo padrão é observado quando comparada a produção científica em medicina.

Quando a análise é restrita à produção científica em imunologia, o Brasil está muito bem posicionado, segundo Aldina. Era o país que mais publicava em imunologia no bloco BCIC até o ano de 2004, quanto foi ultrapassado pela China. Chama a atenção que todos os países apresentam importante curva de crescimento na produção científica em imunologia.
Fazendo a comparação entre Brasil, Argentina e México, o Brasil não só publica muito mais em imunologia que os dois países, mas vem apresentando um crescimento mais acentuado no número de artigos publicados.
Com relação à inserção da imunologia na produção científica brasileira, uma correlação entre o “índice h” e as citações por artigo nas diferentes áreas, a imunologia se destaca juntamente com a medicina, bioquímica e genética, de acordo com Aldina.
Tocando especificamente na questão da produção científica brasileira em revistas de alto impacto, a presidente da SBI mostrou números da baixa publicação em imunologia na Nature, Science e no Journal of Experimental Medicine. No ano de 2007, por exemplo, foram cerca de 20 papers publicados nos três periódicos científicos, com ao menos um endereço brasileiro entre as filiações dos autores.
E como melhorar este quadro? Uma das maneiras de entender as limitações brasileiras ao pleno desenvolvimento da imunologia é ouvir jovens pesquisadores que voltaram recentemente ao Brasil após um período de experiência no exterior.
André Báfica listou inúmeras dificuldades que encontrou ao assumir, em 2007, o cargo de professor da Universidade Federal de Santa Catarina após quase seis anos nos Estados Unidos. Báfica contou que, assim que chegou, dedicou grande parte do seu tempo à submissão de projetos para diferentes agências de fomento. Depois vieram as tarefas administrativas e de secretariado, organização do laboratório, demais obrigações acadêmicas como participação de comissões, comitês, inúmeras reuniões etc. A espera por reagente, que pode levar de 3 a 6 meses, também foi colocado por Báfica como um entrave. O pesquisador sugeriu que os projetos financiados tenham um prazo maior de execução, de 4 a 5 anos, o que pode aumentar as chances de sucesso dos mais jovens, aumentando o número de trabalhos sólidos e, conseqüentemente, com impacto mais elevado. E propôs também a continuidade dos editais voltados para jovens pesquisadores.
Dario Simões Zamboni passou cerca de quatro anos fazendo pós-doutoramento pela Universidade de Yale, também nos Estados Unidos e está de volta ao Brasil desde 2006, quando assumiu o cargo professor da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP-USP). Zamboni apontou várias das dificuldades levantadas pelos demais pesquisadores como importação - não só de reagentes mas também de organismos geneticamente modificados -, tempo de financiamento e um programa não tão eficiente de pós-doutoramento quanto o dos Estados Unidos. Dividiu as estratégias de publicação em dois blocos. Uma primeira voltada à descrição do fenômeno. Uma segunda onde são aprofundados os mecanismos do fenômeno biológico, “mais difícil de fazer na nossa realidade”, disse. Para ele, existe uma combinação explosiva entre o sistema de C&T - que mede o número de papers publicados - e as limitações de importação, tempo e dinheiro enfrentadas pelos pesquisadores. E coloca a reflexão: “continuamos no loop, parando e nos restringindo à descrição dos fenômenos?”.
Manoel Barral-Netto, da Universidade Federal da Bahia, da Fiocruz-Bahia e diretor de Programas Temáticos e Setoriais do CNPq, alertou que a situação não pode ser vista como um muro de lamentações e há a necessidade de apresentação de propostas. “Estamos em um momento crítico e temos que lidar com a nova realidade de que o sistema precisa ser tocado por pós-doutorandos”.
Após todas as discussões, a SBI elaborou a “Carta de Ribeirão”. Vamos acompanhar os desdobramentos e impactos das propostas apresentadas. |