Um resumo do congresso WorldLeish4

Por Beatriz Stolf e Silvia Uliana*

A cada quatro anos é realizado em região endêmica de leishmaniose o WorldLeish, congresso mundial de leishmaniose. Esse Congresso, desde sua criação, em 1999, tem como objetivo reunir estudiosos de todas as áreas do conhecimento relacionadas à leishmaniose, permitindo a integração de áreas como epidemiologia, clínica, biologia básica, imunologia, diagnóstico, terapêutica, prevenção e controle. A experiência trocada por grupos dedicados aos diversos aspectos é muito rica, permitindo ampliar e aprofundar os conceitos e o conhecimento de cada pesquisador.

O WorldLeish4 teve lugar em Lucknow, Índia, de 3 a 7 de fevereiro deste ano. A cidade, situada 600km a leste da capital Delhi, acolheu (com bom espaço mas infra-estrutura precária!) 662 participantes, entre eles 40 brasileiros.

O programa foi bastante amplo. A cerimônia de abertura contou com a presença de autoridades ligadas aos Ministérios de Saúde e de Ciência e Tecnologia da Índia, e com Robert Killick-Kendrick, fazendo um breve resumo, com os fatos históricos essenciais ligados à descoberta e descrição do agente etiológico da leishmaniose e dos mecanismos de transmissão e ciclo de vida. Pradeep Daas fez um resumo da situação epidemiológica do calazar na Índia e Shyam Sundar apresentou sua visão de áreas críticas para que os esforços sejam concentrados, assim como os resultados da pesquisa realizada nos últimos anos que já resultaram em modificações para os pacientes, como a aplicação de diagnóstico sorológico substituindo a punção esplênica e a utilização de miltefosine no tratamento de casos resistentes aos antimoniais.

Uma das tônicas do congresso foi a discussão sobre Quimioterapia de Leishmanioses, abordada sob diversos aspectos: desde resultados de testes de compostos alternativos ainda em fase inicial (quimioterapia experimental) até múltiplos aspectos da quimioterapia clínica. Confirmaram-se dados prévios de alta incidência de resistência aos antimoniais em regiões extensas do continente asiático. Esforços consideráveis estão sendo empregados no estabelecimento de grupos capacitados a desenvolver testes clínicos apropriados em áreas endêmicas, assim como na aplicação de novas modalidades terapêuticas sob condições “rotineiras”. Também foi abordada extensivamente a questão do alto custo das drogas atualmente disponíveis e a variabilidade na eficácia das mesmas em diferentes regiões geográficas. Por exemplo, foram apresentadas evidências de que a susceptibilidade de Leishmania braziliensis em pacientes no continente americano parece estar se reduzindo nos últimos anos.

As principais conclusões obtidas após essas extensas discussões foram que a quimioterapia bem sucedida ainda requer muitos avanços: é essencial que os pacientes sejam diagnosticados precocemente e que sejam tratados sob supervisão de autoridades sanitárias que possam exercer um controle rígido sobre a administração adequada dos quimioterápicos. Existe grande preocupação com o potencial de desenvolvimento de resistência ao miltefosine, dada sua longa meia-vida de eliminação e o uso de subdosagens nas áreas onde o medicamento está sendo utilizado rotineiramente. Foi ressaltada a necessidade do desenvolvimento de novas alternativas para a quimioterapia especialmente para novos compostos ativos e novas formulações (de administração oral preferencialmente) ativas para as diversas formas clínicas de leishmaniose. Concluiu-se que o futuro do tratamento da leishmaniose dependerá da utilização de combinação de medicamentos, dada a forte possibilidade de desenvolvimento de resistência, já observada em algumas regiões.

Trabalhos utilizando ferramentas como marcação fluorescente e resistência a antibióticos mostraram troca gênica entre parasitas no interior do inseto vetor (David Sacks). Nos trabalhos de regulação de expressão, imunoprecipitação de cromatina seguida de array de DNA (o “ChIP-chip”) foi usada para mapear potenciais promotores de Leishmania (Peter Myler). A regulação foi estudada também em termos da estabilidade do RNA devido à presença de retroposons (Barbara Papadopoulou) ou de sequências específicas de ligação a ubiquitina (Partha Saha), e pela amplificação gênica reversível em resposta a pressão de drogas (Marc Ouellette). Uma interessante análise comparativa foi feita entre mudanças de RNA (microarray) e proteína (proteoma) ao longo da diferenciação de pro para amastigotas (Dan Zilberstein), indicando 32% de correlação entre as duas moléculas e mais alterações em termos de proteína.

Em estudos de virulência de L. donovani, genes transfectados na espécie parasita de répteis L.tarentolae tornaram-na virulenta em camundongos (Sima Rafati) enquanto que genes transfectados em L.major levaram a visceralização (Wen-Wei Zhang). As proteínas PI3Kγ e PDI do macrófago foram apontadas como importantes na infecção por Leishmania (Abhay Satoskar e Beatriz Stolf, respectivamente). Ensaios in vivo mostraram ainda que PI3Kγé importante na migração de neutrófilos e macrófagos para a lesão e entrada do parasita nestas células.

Na área de imunologia, trabalhos com neutrófilos mostraram que estas células são atraídas por molécula liberada pela Leishmania e são as principais células infectadas nas primeiras 24h após inoculação (Mary Wilson). A importância dessas células no combate ao parasita foi destacada pela liberação das NETs, redes contendo DNA, proteínas de grânulos e histonas, sendo estas últimas as principais responsáveis pela destruição dos parasitas (Elvira Saraiva). Diferenças importantes foram vistas na resposta imune de camundongos: camundongos resistentes a L. mexicana apresentaram maior migração de macrófagos e células NK para o local da inoculação do que camundongos suscetíveis (Nilka Diaz). Camundongos suscetíveis a L. major mostraram menor frequência de céls CXCR3+ após infecção do que os resistentes, levando a um menor recrutamento de céls T produtoras de IFNγ para a lesão (Abhay Satoskar).

Em termos de vacinas, foram apresentados resultados de vacinação com DNA, proteína e parasitas em BALB/C. Vacinações com cisteíno proteinase (L. infantum) e com glutamil cisteíno sintetase (L. donovani) levaram a redução do número de parasitas, sendo que a primeira induziu resposta Th1 (NO, IFNγ) e a segunda induziu resposta mista Th1/Th2 (Farnaz Zahedifard e Katharine Carter, respectivamente). Um dos trabalhos mais promissores com vacinas de DNA imunizou camundongos com DNAs das quatro histonas, e após infecção com L. braziliensis houve redução dos parasitas no local e linfonodos e ausência de lesão, simultaneamente ao aumento de resposta Th1 (Camila Oliveira). A imunização de macacos Rhesus com DNA de proteínas de saliva de vetores mostrou resultados iniciais promissores (Fabiano Oliveira). Um trabalho imunizou camundongos com L. major sem o gene da PDI (fator de virulência nessa espécie), mas curiosamente observou aumento ao invés de redução da lesão (Hechmi Louzir).

Uma grande contribuição foi o “knockout por regulação farmacológica” em L. donovani, importante para estudo de genes essenciais ou para organismos em que não funciona RNA de interferência. Um cassete contendo o gene de interesse e uma sequência que liga proteína estabilizadora substitui o gene endógeno, e o gene só é expresso na presença da proteína estabilizadora (Armando Jardim).

De modo geral, o congresso foi bom. As novidades não foram muitas: vários trabalhos abordaram perguntas antigas com metodologias novas. Mas esse não foi um viés do congresso, e sim um reflexo dos estudos em Leishmania no momento. E essa reunião teve um ponto único: a convivência com aqueles que identificam, estudam e tratam a doença na Índia, responsável pelo maior número dos casos de leishmaniose visceral do mundo.

*Beatriz S Stolf e Silvia Reni Uliana são professoras do Departamento de Parasitologia do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo (USP).