Cobra venom Factor: um exemplo de uso da natureza para desenvolvimento de novas drogas

Por Denise Tambourgi


O Instituto Butantan teve o prazer de receber, no mês de março, a visita do Dr. Carl-Wilhelm Vogel, do Cancer Research Center of Hawaii, Universidade do Havaí, EUA.

Vogel, juntamente com Muller-Eberhard, na década de 1970, isolou e caracterizou um componente do veneno da serpente Naja naja, o Cobra Venom Factor (CVF), capaz de interagir com o sistema complemento de mamíferos. CVF é um análogo estrutural e funcional da forma ativa do C3 humano. CVF forma um complexo enzimático bimolecular estável no soro, por associação com o fator B, gerando, de forma contínua e não regulada, C3/C5 convertases, o que causa profunda diminuição dos níveis séricos do complemento. Tal propriedade tem sido explorada, por quatro décadas, para “decomplementar” animais de laboratório e como ferramenta para estudar os aspectos biológicos e patológicos das funções do complemento.

Na palestra que nos ofereceu, no Instituto Butantan, registrou que seu grupo, foi capaz de identificar, recentemente, a região do CVF responsável pela capacidade de formar C3/C5 convertases estáveis. Esse conhecimento permitiu a construção de moléculas recombinantes híbridas de C3 humano, contendo a região do CVF, responsável por sua atividade. O CVF humanizado pode ser utilizado com segurança para “decomplementar” animais de laboratório, incluindo primatas, pela administração intravascular. Além disso, mostrou o potencial benefício terapêutico da depleção de Complemento pelo uso de CVF humanizado, em modelos in vitro, como o da proteção de eritrócitos humanos - de pacientes com hemoglobinúria paroxística noturna - à lise mediada por complemento, como também in vivo em diversos modelos animais de doenças como: degeneração macular, artrite reumatóide e injúrias por reperfusão.

Dr Vogel concluiu que derivativos de C3 com função de CVF (CVF humanizado) constituem um bom exemplo de como o conhecimento da estrutura e função de um componente de veneno pode ser utilizado para desenvolver um novo agente farmacológico para o tratamento de doenças humanas e, neste caso, em especial, um potente imunobiológico que poderá talvez ser utilizado nas patologias em que o sistema complemento estiver envolvido.

Denise Vilarinho Tambourgi é pesquisadora do Instituto Butantan.