Por Cristina Caldas
Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia (INCT) para Pesquisa Translacional em Saúde e Ambiente na Região Amazônica. Este é o nome do INCT coordenado por George dos Reis, da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Saiba como a ideia do INCT foi concebida e quais problemas os pesquisadores pretendem atacar. Estão previstas atividades na área de educação em saúde e meio ambiente, tanto para jovens estudantes quanto para reciclagem de professores do ensino médio. Fica evidente a preocupação com a população local. Leia abaixo entrevista concedida ao SBI na Rede.
SBI na Rede: De macrófagos, linfócitos, apoptose, T. cruzi e Leishmania para pesquisas na Região Amazônica. Como foi este salto? Conte-nos como se deu a concepção da ideia do INCT para Pesquisa Translacional em Saúde e Ambiente na Região Amazônica.
George dos Reis: Está relacionado com a história passada da nossa instituição de pesquisa. Quisemos propor um INCT que agregasse o nosso Instituto de Biofísica Carlos Chagas Filho (IBCCF-UFRJ) em torno de um tema de investigação. O IBCCF é multidisciplinar; uma parte de suas pesquisas é dedicada a modelos animais de doenças humanas; outra parte é dedicada a pesquisas químicas e microbiológicas ambientais, como ecotoxicologia de reservatórios de água e poluição ambiental. O IBCCF tem longa tradição de pesquisas ambientais na Amazônia. Desta forma, chegamos às pesquisas na região amazônica como forma de reunir as atividades dos pesquisadores. Para tanto, foi fundamental o apoio que tivemos do Prof. Luiz Hildebrando Pereira da Silva, diretor do Instituto de Pesquisas em Patologias Tropicais de Rondônia (IPEPATRO), que é nosso parceiro no INCT, além do apoio da própria Universidade de Rondônia.
SBI na Rede: Uma das missões do INCT é investigar as principais questões ambientais na Amazônia Ocidental com consequências para a saúde humana. O Sr poderia exemplificar quais são os principais problemas de saúde que as populações locais enfrentam? Há estudos epidemiológicos suficientes e sólidos para a região? Quais são as doenças emergentes e reemergentes?
George dos Reis: Os problemas encontrados são de grande complexidade. As doenças prevalentes são malária, leishmaniose, tuberculose, dengue, hepatites, diarréias de origem viral e bacteriana. Contaminação por metais pesados devido à atividade de mineração. Problemas respiratórios devido a queimadas de grande extensão. Estes problemas terão um impacto adicional, devido à construção de usinas hidrelétricas, acarretando o alagamento de grandes áreas. Estes são os problemas que iremos atacar. Iremos realizar pesquisas desde o nível molecular e celular até o nível epidemiológico e de medidas preventivas e vacinantes. Temos colaborações com a rede de atendimento em saúde de Rondônia, e temos a parceria com o IPEPATRO. Grande parte da pesquisa será de campo, para fazermos o mapeamento de doenças e de contaminações ambientais. Teremos uma atividade nova e na qual estamos empenhando muito esforço, e que será na educação sobre saúde e meio ambiente, tanto para jovens estudantes como na reciclagem de professores do segundo grau.
SBI na Rede: Quais estratégias vocês pretendem adotar junto à EXTRACTA? O Sr poderia contar sobre o Banco Extracta de Biodiversidade Química? Foi extraído de qual região e quais foram as fontes (plantas, solo, microorganismos etc)?
George dos Reis: Alguns pesquisadores do nosso INCT, da Universidade Federal do Pará, já têm projetos em colaboração com a Extracta, e novas formas de colaboração estão sendo consideradas. A Extracta possui um banco de produtos naturais com finalidades comerciais, credenciado pelo CGEN, e aberto a quem quiser utilizá-lo. O Banco Extracta é composto por amostras, principalmente da mata Atlântica e, em menor quantidade, da Amazônia Oriental. Este banco está em expansão.
SBI na Rede: Onde entra a Imunologia?
George dos Reis: A Imunologia estará presente nos estudos sobre os efeitos de novas drogas isoladas de produtos regionais, em pesquisas sobre formas de vacinação, em estudos sobre os efeitos de poluentes químicos e orgânicos no organismo, e no estudo de mecanismos patogênicos de doenças regionais.
SBI na Rede: Em sua opinião, quais serão os principais desafios deste INCT?
George dos Reis: O principal desafio será coordenar de forma eficiente as atividades no campo. E também adequar as equipes da Amazônia com as equipes da UFRJ, particularmente aquelas que não colaboravam anteriormente.
SBI na Rede: E como os colaboradores internacionais se inserem neste desafio?
George dos Reis: Alguns colaboradores historicamente já colaboram conosco, e já deram contribuições importantes aos estudos da Amazônia. Com a sua experiência prévia na área, ou com a sua expertise científica, eles darão contribuições valiosas ao projeto.
SBI na Rede: Quais são os resultados esperados ao final dos três (ou cinco) anos do projeto?
George dos Reis: As populações amazônicas que são alvo da pesquisa, dependem fundamentalmente do ambiente aquático. As atividades do INCT – isto é, o monitoramento das populações expostas a poluentes ambientais, a identificação das formas de degradação ambiental, a identificação das doenças mais prevalentes na região, o desenvolvimento de testes diagnósticos, e a formação de pessoal para atuar na área de Biotecnologia e Bioengenharia – deverão gerar informação e atitudes que possam proteger mais a população. |